Ih! Tou carente e me acomodei. É esse o meu problema, pronto. Sempre foi, né! Como se eu já não me conhecesse nesse sentido. Bom. Tou doente porra nenhuma. Tou triste nada. Tou é enrolada num cobertor, segurando uma caneca de chá com as duas mãos enquanto piso numa bolça de água quente e procuro na TV algum filminho água com açúcar que me proporcione um cochilo intenso no sofá. Assim fica fácil demais. Fácil demais dizer foda-se. Eu sempre fui desse jeito, estouradinha, quando forçada a fazer algo difícil demais ou que eu não goste. Pego birra com uma facilidade incrível. Sempre caguei pras responsabilidades, é isso. Sou sim, capaz de passar dias na cama envolvida pela preguiça, desde que haja um cafunézin e algo pra beber - há quem saiba bem disso. Eu não sou do tipo de achar tudo um saco, passei da fase também. Mas vamos ser realistas? Neve é um saco, cara. Falei. Certo, primeira vez que vi foi bacana, eu estava no quarto da minha irmã, ela sentava no meu colo enquanto eu 'lia' pra ela um livro bem, digamos, 'christmas feelings', o que deixou tudo mais emocionante também. Quando a bicha dormiu, eu desci as escadas e vi pela janela. JONGENS! IK ZIE SNEEUW! E pronto, botei a cabeça pra fora e gritei um CARALHO com uma voz que nem quis sair, de tão empolgada que eu tava. Fiquei lá, com a cabeça pra fora, igual uma mongolóide, tentando pegar floquinho com a língua, enfiando meus dedos na neve, depois tirando devagar e enfiando de novo, brincando nos furinhos, escrevendo meu nome, e o seu, e o dela, e o da familia inteira e de jesus e enfim. Claro que essa brincadeira rendeu uma bela gripe, daquelas que nunca passam realmente, apenas dão uma melhorada nos dias em que a gente acorda assim, ~inspiradíssima~. Mas não reclamo, não. Muito pelo contrário, olha, te contar que com essa gripinha tou no céu - já que, né, assumi que o frio me deu uma baqueada geral, tô podendo dar migué. Vidão. Tô aqui quase de férias, agasalhadinha, vivendo de xarope, alcool e paracetamol, sem precisar de fato ir pra escola... afogada na preguiça, vendo a neve cair sem precisar molhar o pézinho. Mas... porra, qua saco, também. Falta alguma coisa que não sei o quê. Que fase chata, bicho. Cadê meu sol? Me imagino igual uma louca de pantufa na porta do escritório da AFS gritando assim, OW, fasfavô de botar mais uns 40 graus aí nessa merda que eu não to pagando pra ter pneumonia! ... Aloca. Mas uma coisa é fato e vos declaro: tô na bosta, galera. Isso sim tava no contrato: pior fase do intercâmbio é o mês de dezembro. Daí eu penso, ih, to fodida com Jesus né, capricornianos teimosos que resolveram nascer no friozinho. Tô falando merda, mas ein... quando é que essa onda deprê vai passar, caralho? Cadê aquela parte em que os brasileiros param de chorar e viram belguinhas de vez? Tá louco, bicho, tudo bem que tá tudo no mesmo barco e se afundar a gente nada, mas tô uma chata. Até minha preguiça amiga me enjoa. Só penso no Brasil. O bar é o lugar que mais me faz sentir em casa. Qualquer bar, mas que seja de quarta-feira e me deixe muito louca. Chego no balcão, limpo a neve do tênis, tiro meu casaco e peço uma tequilinha. Hmmm, rapaz! Não sei mesmo o que acontece por aqui, mas da última vez tomei cinco e fiquei só meio quentinha. Aquele formigamento bom. E a vida fica bonita.
Parei por aqui que tá tarde.
PS: Papai Noel, enfia essa neve toda no... trenó! BEEEIJO, querido!