o que está havendo é que o nível caiu, a coisa cresceu, quebrou barreiras, esbarrou nas raias, chegou no topo e transbordou - ninguém limpou o estrago até agora. olha, eu nem sei direito. meus pais foram pra Holanda, estou sozinha em casa. não sinto nada de muito diferente, tirando que eu tenho que fazer minha própria comida. tou meio bêbada, não sei dizer do que sinto falta. não sei mais escrever e mesmo se soubesse não teria o que contar. acho que congelei em tantos sentidos. responsabilidades me dão cãibras e sabe, o que é o vigésimo foda-se depois do primeiro? se não é o alarme pra me tirar da cama sou capaz de migrar de vez para os meus sonhos, por mais brega que isso soe agora. se ninguém me empurra do trem passo as horas, o dia e a vida lá, indo e nunca chegando, colada na janela sem conseguir ver mais nada - as paisagens passam como passariam se eu estivesse num túnel escuro com luzes a cada dez metros, triste, previsível assim. nada novo, todo mundo vai beber e se tocar, depois tirar a roupa, fumar um cigarro e esperar a ressaca e o último trem. felicidade. tanta gente dando um braço por isso. felicidade só existe quando compartilhada. e depois de um ano, convenhamos, nem sempre vale o esforço. minha mente saiu de férias e tou vivendo de lembrar, isso é algo que não controlo, nunca pude. a gente não supera realmente, apenas vive de achar coisas novas, que vão sim ser velhas, enfim. as luzes nos túneis passam rápido demais, entende? felicidade é o que escorre na madrugada de quarta. em túneis, ou campos, não faz mais diferença. é se ver envolvido por braços de gente que te recebe na mesma língua. e isso pode tomar tantas conotações. bem, pra quebrar o clima: abraços que já dei na mãe hospedeira foram dois. um porque era natal, aquela coisa. outro foi porque eu fui la e pedi. tenho ligado muito pra casa, já deitada, olhando pro teto. e aí acordo achando que é verão, que é Brasil, isso até olhar pra cima, ver que tem janela no teto e gelo no vidro. aí fodeu. luz alguma, dessa vez. felicidade volta a dormir, e é aí que nos encontramos. o que está havendo é que o nível caiu e o tempo arrastou, penso às vezes que esses últimos anos serviram pra arrancar um pedaço do meu cérebro e jogar no lixo, 2011 veio e disse "procura e põe no lugar, filha da puta". cara. eu não vou aprender francês, holandês, alemão. não vou abrir mão de achar o meu país o mais bonito, infinitamente. eu poderia, mas eu não quero. antes fosse essa a crise. eu não quero é nada! e dane-se. inteiramente falando, dane-se.