domingo, 19 de junho de 2011

Gosto de comparar a Bélgica com um prato de batatas fritas.

Primeiro porque, dã, é o que eles comem aqui. Depois porque é o meu país de intercâmbio, o que torna as coisas automaticamente mais intensas. Esse ano foi, de longe, o mais intenso da minha vida. Delicioso. Porém enjoativo, repetitivo - igual ao prato de batatas. Você pode escolher o molho que vai usar, adicionar ou não sal, pimenta, fogo ou foguinho mas é, sim, sempre igual, as crises de auto-conhecimento e as percepções do mundo vêm a todos, ciclicamente, inevitavelmente e, no fim, um arroto, uma indigestão e uma vontade de comer tudo de novo.

Bem, é aos sábados que eu exagero nas fritas e em tudo que "é ruim mas é bom". Aos domingos vem a indigestão, o que me leva a perceber eventualmente que eu sou uma puta duma idiota descontrolada. Opa. Vou explicar isso também.

No intercâmbio nada parece ser levado a sério demais. Na-da, nem ninguém. É como se fosse uma realidade desconectada da vida real, então, oras, quem se importa? Eu nunca fui uma pessoa assim responsável, a palavra "organização" não cabe numa mesma frase que meu nome, mato aula, não arrumo o quarto, odeio lavar louça, perco oportunidades boas, me frustro por besteira e coisa e tal. Sou um bebê, mas aí é que tá: isso é problema meu, e eu sei viver com isso. A partir do momento que o problema deixa de ser meu, a irresponsabilidade toma um caráter de desrespeito e, bróder, isso eu não pratico nem aqui nem na China, nem na Bélgica e nem no Brasil. Essa não é mesmo a vida real que eu tenho. É um mundinho inventado, um contrato assinado com prazo de validade. O que temos de real é o que sentimos. E com sentimento não se brinca. Porra. Eu, tomada pela vibe do hier kan ik alles comecei a brincar mesmo assim. Sinto que regredi, virei um mostro afogado em óleo de fritura e ressaca moral de domingo. É hora de voltar. Parar de beber. Arrumar um trabalho, um amor, pôr em prática o lado bom de tudo o que eu aprendi, mostrar pra deus e o mundo o ser humano que me tornei aqui, apaixonadíssima, sempre querendo melhorar. Mas pra isso, "é preciso cortar a batata", em seus tantos sentidos.

Bem. 20 dias. Vamos?

...

(hier kan ik alles = aqui eu posso fazer qualquer merda e foda-se, tipo.)